Sobre “Disraeli Gears” ou um tributo a Jack Bruce

Hoje o blog do Clube do Vinil presta uma homenagem a Jack Bruce, falecido nesse sábado, 25/10/2014. Mais um gênio que se vai este ano. Assim sendo, falaremos de um álbum seminal para o blues-rock: “Disraeli Gears” do Cream.

Jack Bruce em sessão do Cream

 A Banda

 Um das primeiras bandas a ser chamada de “Power Trio” e “Supergrupo”, o Cream foi formado em 1966 por Eric Clapton (que depois de seus tempos de Yardbirds e John Mayall & the Bluesbrakers já tinha a alcunha de “deus”), Ginger Baker e Jack Bruce (que já haviam sido a cozinha do Graham Bond Organisation). Baker e Bruce já tinham um retrospecto de brigas, mas resolveram tentar colocar as diferenças de lado por uma vontade maior de fazer o som que mais lhes agradava: o blues-rock.

Jack Bruce, Ginger Baker e Eric Clapton

Clapton começava a deixar o purismo do Blues que o afastou do Yardbirds de lado e a vontade de se aventurar ao microfone começava a falar mais alto. Ainda assim, Jack Bruce assumiu boa parte dos vocais principais da banda que, mesmo tocando suas próprias composições, gravou diversos covers de blues, como “Rollin’ and Tumblin’” (de Hambone Willie Newbern, imortalizado por Muddy Waters), “Spoonful” (de Willie Dixon, imortalizado por Howlin’ Wolf) e “Crossroads” (da lenda do Blues, Robert Johnson). Foi durante a época do Cream que a amizade conturbada de Eric Clapton e George Harrison se aprofundou (gerando dois clássicos do Cream e dos Beatles no mesmo dia: “Badge” e “Here Comes The Sun”, respectivamente) e que Jimi Hendrix estourou no Reino Unido.

Num tempo em que Beatles começavam a mudar de rumo, o Who já destruía instrumentos ao som de “My Generation”, os Stones começavam a se satisfazer, um tal de Jimmy Page substituía Jeff Beck nos Yardbirds de Clapton e Hendrix fazia o Reino Unido experienciar todo o poder de sua guitarra, o que faz o Cream ser tão marcante? Provavelmente, além de trazer nomes tão fortes da cena britânica da época, conseguir unir tudo isso num só pacote. Guitarras estridentes, wah-wah, baixo poderoso, a boa e velha gaita do blues, bateria tão precisa, solta e barulhenta quanto pedem o blues, o jazz e o rock’n’roll respectivamente e muito (mas bota muito nisso) improviso. Além de, é claro,  todo um clima de sexo livre e abuso de álcool e drogas.

Bruce, Baker e Clapton – Todo o estilo do Cream

Depois de lançar em 1966 o álbum de estreia “Fresh Cream”, que já contava com todos esses elementos de maneira mais crua, o Power Trio se uniu para compor e gravar uma tentativa de mistura perfeita entre blues, rock, jazz e psicodelia. Em 1967, ofuscado pelos lançamentos de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, e “Are You Experieced”, da Jimi Hendrix Experience, sai o álbum definitivo da curta discografia de 4 do Cream: “Disraeli Gears”. (Em 68 sairia “Wheels of Fire, muito melhor em vendas e mais presente no setlist dos shows, mas convenhamos, poucos são os clássicos imediatamente reconhecidos como tal em sua época.)

O Álbum

A capa genialmente psicodélica de Disraeli Gears

 Gravado em Nova Iorque no lendário Atlantic Studios durante o mês de Maio de 1967, “Disraeli Gears” abre com o blues de 12 compassos alterado pelo produtor Felix Pappalardi “Strange Brew”, que já traz o clima de bebedeira e desencantos amorosos presentes no disco e nas vidas dos integrantes do Cream. Em seguida, um dos mais marcantes riffs da história: “Sunshine of Your Love”. Com baixo e bateria precisos (o que levou um tempo para o trio acertar), houve espaço suficiente para Clapton experienciar (pun intended) o som do wah-wah e para a banda inteira, nos shows, mergulhar em infinitos minutos de improvisação. Depois de uma dobradinha dessa na abertura parece difícil manter o nível, mas “World of Pain” e “Dance The Night Away” conseguem unir perfeitamente a piração no wah, nos reverbs, as linhas marcantes de baixo e bateria e o clima controversamente sombrio e colorido. “Blue Condition”, única contribuição como compositor do baterista Ginger Baker, encerra o lado A.

 O lado B abre com “Tales of Brave Ulysses”, escrita pelo artista australiano Martin Sharp num guardanapo dado a Clapton. Aqui Jack Bruce mostra toda a potência de sua voz ao narrar histórias de Ulisses (sim, o da Odisseia de Homero) perfeitamente alinhado ao riff principal da música. E, novamente, o wah-wah se faz incrivelmente presente. Muitíssimo parecida com “White Room” (que abriria o próximo disco “Wheels of Fire”), a faixa termina em fade-out, em um momento de puro improviso, característica mais marcante do Cream, segundo o próprio Jack Bruce. Tão poderosa quanto, “SWLARB” (She Walks Like a Bearded Rainbow) é acelerada, barulhenta e precisa. Além de ser mais uma canção sobre relações conturbadas com mulheres.

Ginger Baker sendo Ginger Baker

Conduzida principalmente pela bateria de Baker, “We’re Going Wrong”, de Jack Bruce, traz notas alongadas nos vocais e nos instrumentos de corda, além dos bends mais melancólicos do disco perfeitamente encaixados por Clapton. “Outside Woman Blues”, um dos poucos covers do disco, é um rearranjo de Clapton para o blues de 1929 composto e gravado por Blind Joe Reynolds. “Take It Back” traz todo o clima de bar com a gaita de Jack Bruce e vozerio ao fundo se misturando com a levada de blues que carrega a música. Finalmente, o disco encerra com “Mother’s Lament” canção tradicional gravada ao piano que nos leva diretamente para um final de noite de bebedeira com Baker, Bruce e Clapton.

 “Disraeli Gears” é uma jornada por uma noite com mulheres indo e vindo entre uma dose e outra, uma conversa sem muito nexo com gente que mal se conhece, podendo vir de todos os cantos do mundo, com doses pontuais de psicodelia. União da tradição do blues e da inovação do rock. O mesmo velho bar, frequentado por um novo e jovem público. E ao fim, mesmo de ressaca, a vontade é de tomar um gole dessa “Strange Brew” e fazer tudo de novo.

para ouvir

por Daniel Vellutini

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2 comentários Adicione o seu

  1. benjamim picado disse:

    um detalhe: o 12-bar blues que gerou “strange brew” chama-se “hey lawdy mamma” e foi gravado originalmente por buddy moss em 1934. o riff que clapton criou para a versão que gravava do mesmo levou falix pappallardi a sugerir a inserção da melodia de “strange brew”. no mais, há um documentário supimpa no youtube (em 5 partes) sobre a gravação do album clássico de baker, bruce&clapton, no seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=kqfIz6SxqR0

    1. Obrigada pelo complemento, Benjamim!

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