20 anos de: “Grace”

1cae89ec418c04e248b49f695d867932caef5eab
Em 1991, uma voz surpreende em uma igreja no Brooklyn. Um jovem intenso faz covers de seu pai, Tim Buckley, com quem teve contato só uma vez, aos 8 anos, e que morreu de overdose de heroína dois meses depois. Uma das músicas é sobre seu próprio nascimento e o curto relacionamento de Tim com sua mãe, e prevê a dor da criança: ‘envolvido em contos amargos e sofrimento, ele implora apenas por um sorriso’. Jeff Buckley diria mais tarde que o show não era o trabalho ou a vida dele, mas que aceitou o convite para prestar uma última homenagem, já que o incomodava não ter ido ao funeral do pai. A voz dele, porém, revelava o impacto que isso tinha pra ele. Em Once I Was, uma corda de sua guitarra quebra e ele continua em acapella, e de repente o que há ali é um menino vulnerável. Mas ele finaliza a performance brilhantemente. Buckley estava em Nova Iorque em uma ‘operação de auto-resgate’. Depois do show na St Ann’s Church, ele conhece Gary Lucas, com quem formaria o Gods and Monsters, mas dois anos depois ele percebe que precisa ‘evocar a essência real de sua voz’ e começa a se apresentar solo.

Nos shows, ele incorporava Piaf, Aretha Franklin e Nina Simone, se distanciando do típico vocalista de rock alternativo. Jeff tinha uma diva interior, e poderia facilmente se encaixar em musicais da Broadway com seus agudos e voz expressiva. Ele vira um dos nomes mais comentados da cena nova-iorquina, chama a atenção de gente como Carole King, e é contratado pela Columbia Records. Depois de uma demo que incluía até uma faixa punk, em 1993 ele entra em estúdio com o produtor Andy Wallace. Lançado em Agosto de 1994, Grace revela muito sobre a vida de Jeff durante esse período, e a efervescência de Nova Iorque está totalmente ligada a isso. Jeff viveu vários relacionamentos, compondo sobre eles entre uma apresentação e outra, e mergulhou em cada um.

0

Mojo Pin é um ode à suavidade do jazz, até explodir mais a frente, e é impossível não lembrar de Kashmir. A faixa é sobre ‘precisar de uma pessoa, beber suas bebidas, fumar seus cigarros e até mesmo pegar as nuances da voz dela’. É sexy e confessional. Grace é rica, tem duas pequenas introduções, e depois de um refrão quase sussurrado.. gritos e mais agudos. Seu alcance vocal chega ao extremo. Ele grita a palavra ‘slow’ com tal desespero, que mal dá pra entender. A letra é tragicamente profética. Fala sobre não ter mais medo de morrer depois que você encontra o  verdadeiro amor, e sentir que sua hora está chegando. Last Goodbye virou um hit da MTV. Quem diria que depois da histeria de Grace viria algo tão radio-friendly? Mas é tão densa quanto todo o resto. Inspirada em uma relação que ele teve aos 22 anos com uma mulher de 37, é sobre entrar em uma relação que você sabe de início que não vai durar. No cover de Lilac Wine, imortalizada na voz de Nina Simone, os vocais são intuitivos e desesperados, narrando alucinações com o ser amado. E essa é parte da graça: ele fazia com que os covers parecessem músicas dele, associando a suas histórias. So Real mescla o drama a um rock alternativo um pouco mais familiar à cena da época, e o trecho falado é outra prova de sua vulnerabilidade.

Hallelujah é o ponto alto de Grace. A interpretação ‘definitiva’ entrou no Registro Nacional de Gravações americanas, se juntando a gravações como o discurso ‘I Have a Dream’, de Martin Luther King. A canção é de Leonard Cohen, e inspirada num cover de John Cale. Ainda assim, Jeff faz com que pareça dele. Como diz a Time: ‘uma pequena cápsula da humanidade, seguindo entre glória e tristeza, beleza e dor’. A letra de Cohen recorre a elementos espirituais e passagens bíblicas para definir situações da existência. Ela se relaciona bem com a vida complicada de Jeff e sua família, e ele mergulha nela como se tivesse encontrado sentido para tais acontecimentos. A maior parte dos covers de Hallelujah feitos depois desse, são baseados em sua versão.

Lover, You Should’ve Come Over retoma o blues para falar sobre o término de Buckley com Rebecca Moore. Na canção tradicional Corpus Christi Carol, Jeff impressiona, se baseando na cantora de ópera Janet Baker e fazendo voz lírica feminina com melancolia, paz e graça. O contraste torna Eternal Life mais impactante, e levamos um susto com a influência de grunge, os riffs agressivos, a voz menos impostada. A letra deixa o romantismo para se questionar sobre o racismo e as guerras. Nos lembra que se trata de um cantor de alt rock dos anos 90, no mesmo contexto de Nirvana ou Soundgarden – Chris Cornell, inclusive, era um de seus amigos próximos. A obscura Dream Brother encerra o álbum como uma síntese dele e uma prévia do que teria vindo, já que sua misticidade remete a New Year’s Prayer – uma das gravações para o segundo álbum.

Pra se ter uma noção do buzz em torno do álbum, David Bowie o nomeou o melhor álbum já feito, e um dos que ele levaria pra uma ilha deserta. Outros favoritos de Jeff o elogiaram, como Jimmy Page, Robert Plant e Bob Dylan. Ainda que bebesse de muito do que acontecia na época, Grace é desprendido da guerra grunge x brit pop. E é extremamente influente. Thom Yorke, do Radiohead, escreveu uma das canções de The Bends depois de um show de Jeff. Matt Bellamy, do Muse também tem influência – em faixas da banda como Spiral Static, é muito óbvio. E novos seguidores vão surgindo, como Matt Corby, cuja semelhança vocal é assustadora.

Depois de uma turnê que incluiu Glastonbury e o lendário CBGB, Buckley começou a trabalhar no segundo álbum, My Sweetheart The Drunk. No começo de 1997 se mudou para Memphis e começou a retrabalhar as canções lá, enquanto sua banda fazia o mesmo em Nova Iorque. Em uma noite, foi nadar com um amigo, vestido e de botas, cantando Whole Lotta Love, em um rio no Mississippi. Nesse momento, um barco passou, e Jeff desapareceu. Depois de dias de busca, o corpo dele foi encontrado.

Depois disso, foi lançado em 1998 um álbum póstumo com o que já estava pronto para My Sweetheart The Drunk. Dele sai o delicado single Everybody Here Wants You, agora sobre um relacionamento feliz – com a violinista Joan Wasser. Em faixas como Vancouver e Witches Rave, nota-se que a ideia era fazer algo bem diferente, mais rock, e tal energia fazia a morte parecer ainda mais injusta.

O culto em torno de Grace só cresceu: o álbum já esteve nas listas de revistas como Q, Pitchfork, Rolling Stone, NME, etc. Em 2004, foi lançada a Legacy Edition – uma versão dupla com covers de Bob Dylan, MC5, e versões alternativas, além da divertida Alligator Wine. Há ainda Forget Her, um blues honesto onde a voz de Jeff está ainda mais vulnerável, como alguém prestes a chorar. Muitos não gostaram da ideia – Jeff nunca a quis no álbum, dizia que se ouvisse de novo, iria ‘vomitar’. Ainda assim, por sua melodia simples, a Columbia lançou como single. Um ano antes, o hype de Hallelujah volta graças à série The O.C. A partir daí, a música se tornou recorrente em séries, de House a Cold Case, e Leonard Cohen reclamou da superexposição. Em 2007, 13 anos depois do lançamento do álbum, ela ficou em primeiro lugar nas paradas.

Alguns especulam sobre o quanto da importância do álbum é causado pela morte dele, e se seria capaz de fazer outro álbum como esse. A verdade é que Jeff não tinha essa intenção. Mas dá pra imaginar que sua importância para a cena alternativa seria a mesma, ainda que a sonoridade mudasse. O que fica é a melancolia em saber que Grace sempre será o registro único de quem ele era.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s