As Feras Estão Soltas

Feras-Míticas

Como suceder um excelente primeiro álbum? Eis o drama de 11 entre 10 bandas. Mas o Garotas Suecas tirou de letra. “Feras Míticas” (2013), lançado em CD, Vinil e mp3, traz um outro olhar da banda paulista sobre o mundo e sua própria música. Como o empolgado (e empolgante) “Escaldante Banda” de 2010, o segundo álbum também vem carregado de suingue, especialidade da casa, mas dessa vez de forma mais introspectiva e, na maior parte do tempo, menos pulante (porque dançante ainda é, mesmo que pra passos mais lentos).

Garotas Suecas, uma banda formada essencialmente por rapazes brasileiros (com a exceção de Irina Bertolucci, a moça dos teclados), não é uma banda dos anos 10, eles já tem um bom tempo de história. Antes do primeiro álbum, veio praticamente uma coleção de EPs que prepararam o caminho para o que viria. Turnês pelos Estados Unidos (já desde o comecinho da banda), pela Europa, premiações pelo genial clipe de “Banho de Bucha”, parceria com Elza Soares são apenas alguns dos feitos do grupo antes de lançar “Feras Míticas”.

O disco, produzido pelo inglês Nick Graham-Smith, abre com um riff poderoso que logo dá vez para a letra um tanto melancólica de “Manchetes da Solidão”. Em seguida, “New Country”, a primeira das três faixas em inglês do álbum, mantém a vibe mais introspectiva até o refrão tão convidativo que o ouvinte mal percebe que ao fim da música já está cantarolando junto. Riffs e programações dão o tom de “Bucolismo”, faixa cantada por Nico Paoliello (bateria). “Pode acontecer” começa e termina singela ao som do piano e da voz doce de Irina, mas tem um clímax de tom épico, com conjunto de cordas, sintetizadores e tudo que se tem direito.

A banda te convida a ir pra uma discoteca em LA, depois de confessar que o clima aqui está baixo-astral (não o do disco, mas certamente, o da vida, esse mar de inspiração para as músicas – e para a excelente capa criada por Deco Farkas) em “L.A. Disco”. Depois de tanto pular com o final da música, a voz de Guilherme Sal vem nos dizer que vai sorrir pra quem é gente boa. E assim a banda reforça cantando junto, forma que viria a ser o padrão após a saída do vocalista pouco depois do lançamento do disco.
Em seguida, na faixa “A Nuvem”, somos lembrados de que o poder dela não é só o de estimular nossa imaginação com tantas formas que assume. Para confirmar essa força, vem como um trovão, que não é desses que se esteja acostumado, a voz de Lurdez da Luz, uma das artistas convidadas do disco. Num segundo momento de contemplação do céu e das cidades, as cordas são presença marcante em “St. Marks Theme”, outra das canções em inglês facilmente cantaroláveis sem perceber. “Bicho” traz, ainda que brevemente, muito do que já se conhecia de “Escaldante Banda”, mensagem forte, batida mais “pra cima” e riff poderoso. Quando o solo alucinado de guitarra de Tomaz Paoliello termina de soar, junto da música, eis que Paulo Miklos (Titãs) dá a ordem: “É preciso deter este animal!”. O Garotas Suecas decidiu que regravar um lado B obscuro é muito mainstream e gravou uma das primeiras músicas dos Titãs nunca gravadas: “Charles Chacal” (mas que dá pra achar no YouTube facinho, facinho). E o fez com maestria.

Coerente com a fala de Irina no programa “Cultura Livre” de que eles não gostam de ser rotulados, em “Roots are for Trees” a banda afirma que seus pés não se importam com o chão em que estão e que não vão fazer o que as pessoas quiserem que façam. E, ao som de passarinhos (ó o tal bucolismo aí de novo), Irina indaga como vai ser “O Primeiro Dia” que vai passar com você. “Peraí. Comigo?”. Pode ser. Como vai ser o dia que você vai passar com o Garotas Suecas? Se depender do que eles nos apresentam nesse disco, vai ser bem suingado, sem medo de ser alegre, sonhador, contemplativo, introspectivo, nômade, plural e coerente.

Ao fim eles provam que são mesmo “Feras Míticas”. E como tal, são cheios de nuances, mas com características tão marcantes e próprias quanto deveriam ser.

Para ouvir: https://soundcloud.com/garotas-suecas/sets/feras-miticas

1604965_703929329656116_7254614651587208782_nPor Daniel Vellutini

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