Álbuns da semana: The Queen Is Dead x As Quatro Estações

Década de 1980: do post-punk, da new wave, dos primórdios do indie. Sintetizadores, letras emocionais, uma versão mais introspectiva do agitado rock do fim dos anos 1970. Nesse cenário surgem – curiosamente no mesmo ano, 1982 – dois marcos para a música, um, mundial, e o outro, que se tornaria um dos maiores e mais aclamados nomes do rock brasileiro. The Smiths e Legião Urbana compartilham, além do ano de formação, de algumas influências em comum, além de ambas terem líderes tão carismáticos quanto enigmáticos, se tornando ícones cujos fãs são extremamente dedicados e apaixonados até hoje. Seus respectivos álbuns mais famosos e aclamados, The Queen Is Dead e As Quatro Estações, são a atração do nosso próximo Clube do Vinil, mostrando o quanto permanecem essenciais e influentes para a música.

Antes de formar o Smiths com Johnny Marr, Morrissey tinha liderado uma banda de punk rock, o The Nosebleeds, e eles escolheram esse nome como uma ironia a nomes complicados das bandas de synthpop da época. Eles lançaram seu primeiro single Hand in Glove em Maio de 1983, e no ano seguinte é lançado seu primeiro álbum. Já nesse debut a banda já contava com letras controversas como Reel Around The Fountain e Suffer Little Children. Meat is Murder, o segundo álbum, é lançado em 1985, com letras mais políticas e o hit Heaven Knows I’m Miserable Now. Na época, Morrissey começou a falar de política também em suas controversas entrevistas. Os álbuns seguiam uma linha ainda influenciada por punk, mas mais melódica e passional, e influenciariam diversas bandas alternativas e indie pop.

Em 1985, o Legião lançava seu primeiro álbum, gravado em 1984, também com forte presença punk e letras políticas, como Geração Coca-Cola, uma crítica ao regime militar. Ainda que tido como com qualidade de gravação ruim, o álbum contém alguns dos maiores hits da banda, como Ainda é Cedo e a altamente influenciada por synthpop Por Enquanto. The Smiths era uma das influências. Em 1986 é lançado Dois, o segundo álbum, mais romântico, melancólico e influenciado por folk, com mais hits como Eduardo e Mônica e Tempo Perdido. O álbum seguinte, Que País é Este, retoma as raízes punk com músicas compostas na época do Aborto Elétrico, formada por Renato Russo e componentes do que se tornaria o Capital Inicial, no fim dos anos 1970, com letras altamente políticas e revoltadas. Faroeste Caboclo, hino cuja imensa letra estudantes roqueiros de todo o país se gabam por decorar, conta uma história que mais tarde viraria filme, e é inspirada pelo clássico de Bob Dylan, Hurricane.

Nesse mesmo ano é lançado The Queen Is Dead, álbum mais aclamado do The Smiths. No ano anterior, o The Smiths estava em turnê nos Estados Unidos e Reino Unido, e nesse período Johnny Marr começou a compôr algumas das faixas. The Boy With The Thorn In His Side foi uma delas, falando sobre a falta de reconhecimento da banda, e é a preferida de Morrissey. Em entrevista, ele diz que se perguntava, se a indústria ainda não acreditava neles, quando iria? A demo de Some Girls Are Bigger Than Others foi gravada na mesma época por Marr, que a enviou por carta a Morrissey, e ele a completou com a letra separadamente. Marr prefere a música à letra. No fim de 1985 são escritas pelos dois, em uma maratona de composições, Frankly Mr Shankly, uma brincadeira com o diretor da gravadora; o triste hino dos términos I Know It’s Over que ganharia interessantes covers no futuro; e o master hit There Is A Light That Never Goes Out. A última foi lançada como single apenas em 1992, depois do término da banda, e que tem letras inspiradas por Lonely Planet Boy do New York Dolls, e por uma frase em um filme com James Dean. Never Had No One Ever é baseada em uma demo que Marr gravou em 1984, e a letra fala sobre a insegurança de Morrissey, que não se sentia a vontade por vir de uma família de imigrantes. A irônica The Queen is Dead brinca com os costumes sociais dos britânicos, inclusive do próprio Morrissey, e é baseada numa música escrita por Marr na adolescência. Seu nome original já revelava a acidez da letra: Margaret On The Guillotine. A fascinação de Morrissey com o cinema dos anos 1960 fica clara em todo o álbum, desde a capa, que ilustra Alain Delon no filme noir de 1964, The Unvanquished, até o trecho inicial da faixa The Queen Is Dead, tirado do filme de 1962, The L Shaped Room. A faixa é uma das músicas da banda que foi mais influenciada por punk. Vicar In a Tutu é inspirada por rockabilly e Frank Sinatra.
A intensidade dramática de Morrissey, atormentado por seus sentimentos e sexualidade, marca um de seus mais belos e emblemáticos versos: “And if a 10-ton truck kills the both of us / to die by your side / the pleasure / the privilege is mine.” Cemetary Gates é uma resposta a críticos que reclamaram das frases que Morrissey tirava de seus atores preferidos, enquanto uma frase de Oscar Wilde está presente no single de Bigmouth Strikes Again.
O misto de auto-crítica, deboche, política, punk e sofrimento deu certo, e o álbum ficou 22 semanas na parada britânica, recebeu ouro nos anos 1990 e é até hoje elogiado pelas revistas especializadas, sendo escolhido pela exigente revista indie NME como o melhor álbum de todos os tempos. Porém o período de gravação desse clássico começou a revelar os conflitos que culminariam no fim da banda. A banda estava exausta, o lançamento do álbum havia sido atrasado por problemas com a gravadora Rough Trade e Marr estava doente e com problemas com bebida. O baixista Andy Rourke foi demitido no mesmo ano  graças a seus problemas com heroína, através de um Post-It colado no seu carro. Quando o álbum seguinte, Strangeways Here We Come, de 1987 foi lançado, a banda já tinha acabado. A gota d’água foram os sérios conflitos pessoais entre Morrissey e Johnny Marr, agravados pelo incômodo de Morrissey pelo trabalho de Marr com outros artistas e o fato de Marr detestar a obsessão de Morrissey com a cultura pop dos anos 1960.
O legado da banda se tornaria inegável, influenciando movimentos como indie rock, indie pop, alternative e britpop e artistas que também viriam a ser inspiração pra outras bandas, como Blur, Suede, Jeff Buckley, Belle and Sebastian, entre diversas outras. E o próprio Legião Urbana.
Em 1989, dois anos após o término do Smiths, sai As Quatro Estações, que se tornaria o mais vendido e um dos mais elogiados do Legião Urbana. O álbum também foi influenciado por crises, depois do ódio generalizado do público graças à confusão no show no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, que terminou com pessoas pisoteadas. Isso aumentou a fobia de palco de Renato Russo, e tornou a sonoridade ainda mais introspectiva. Pra completar, o baixista Renato Rocha sai da banda – e mais tarde ele viraria morador de rua graças às drogas. Musicalmente, o álbum se afasta do punk e se torna o mais calmo até então, e suas letras destacam valores como compaixão, disciplina, bondade e coragem como base para discussão sobre como o país deveria ser conduzido, a esfera social, chegando a sentimentos individuais e à vida pessoal de Renato. Além da sempre presente crítica social, o disco tem letras confessionais sobre a bissexualidade de Renato e alguns de seus relacionamentos, em especial em Meninos e Meninas e Maurício. A religião é citada no clássico Monte Castelo, faixa romântica que mescla o famoso soneto de Luís Vaz de Camões com trechos do livro de Coríntios, da Biblía. A mistura de religião e temas românticos volta em Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar, que tem um trecho do rito litúrgico cantado na Igreja Católica, Cordeiro de Deus. A forte 1965 (Duas Tribos), retoma as críticas à Ditadura Militar, e fala sobre as torturas, além de chamar a atenção dos brasileiros que confiavam nas mensagens de progresso. Feedback Song for a Dying Friend, inicialmente seria em português e se chamaria Rapazes Católicos, algo com que a família de Renato não concordou. A triste música fala sobre amigos que estavam morrendo de Aids, inclusive Cazuza, que morreria no dia de um dos shows da turnê desse álbum – e seria homenageado no mesmo. Pais e Filhos, um dos maiores clássicos do rock nacional, que possui diversas versões e uma das letras mais tocantes, está nesse álbum.
Depois de alcançar seu maior sucesso com o Legião, Renato entra em um momento difícil em que descobre que é soropositivo e tem conflitos em seu relacionamento, além de lutar contra o alcoolismo. Em contraste a discussão romântica e a esperança presente em As Quatro Estações, sai V, o álbum mais obscuro e diferente do trabalho da banda. Em 1993 sai o penúltimo álbum, O Descobrimento do Brasil, um pouco mais positivo e considerado o mais delicado do Legião. Em 1995 eles fazem o último concerto, e em 1996 sai o último álbum A Tempestade, com letras de despedida e introspectivas, e para o qual fotos do álbum solo de Renato, Equilíbrio Distante (1995) são reaproveitadas já que ele estava debilitado e não tirou fotos para o álbum. Ele falece 21 dias depois do lançamento, e 11 dias depois o fim oficial da banda é anunciado. Um álbum póstumo, Uma Outra Estação, foi lançado em 1997. O legado da banda, assim como o do The Smiths, é presente até hoje não só nas bandas de rock nacional que vieram depois, mas no dia-a-dia dos brasileiros. As músicas continuam tocando nas rádios, e estudantes continuam aprendendo a tocar instrumentos através delas, filmes são lançados, e as letras políticas permanecem atuais.

Nessa Terça, dia 09/09, o Clube do Vinil inicia as atividades do semestre discutindo a importância desses dois álbuns clássicos, a sensibilidade dos vocalistas, a presença dessas músicas na vida dos fãs, influências, contexto da época e várias curiosidades que estamos guardando pra comentar na sessão, além de um sorteio do vinil do The Queen Is Dead! Será na Sala 305, no Gragoatá, às 18:30. Esperamos todos vocês!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s