20 anos de: “The Holy Bible”

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O blog do Clube do VInil inaugura a sessão “20 de anos de”, que homenageará clássicos álbuns de 1994 completam 20 anos em 2014. Fique ligado!

1º de Fevereiro de 1995: é encontrado um carro vazio na Ponte do Severn, que liga a Inglaterra a País de Gales. Seu passageiro foi dado como desaparecido e após incessante investigação pela polícia, nunca mais foi encontrado. Em Novembro de 2008, foi declarado oficialmente morto, quando enfim a persistente família da vítima desistiu de encontrá-lo.

O carro pertencia a Richey Edwards, que oficialmente, era guitarrista do Manic Street Preachers, grande esperança do rock galês no começo dos anos 90 ao lado do Stereophonics. Na verdade, Richey não sabia tocar nenhum instrumento – ao vivo, ele só fingia que tocava. A função dele no então quarteto era escrever as letras, ora políticas e ácidas, ora torturantes e pessoais, dar entrevistas e cuidar da parte visual da banda.

Na primeira metade da década os Manics ficaram mais famosos pelas polêmicas do que pela música, a maioria delas incluindo Richey. A banda levantava bandeiras marxistas e atacava os valores conservadores da sociedade, da política e da economia britânica. Eles se vestiam de mulheres, quebravam equipamentos e estrutura dos shows por onde passavam, e soltavam frases como “Espero que Michael Stipe vá pelo mesmo caminho de Freddie Mercury em breve” ou “Slowdive é pior do que Hitler.”

Richey era a grande estrela. Em uma entrevista a revista inglesa NME, o jornalista Steve Lamarcq indagou ao letrista se toda a atitude da banda era só pra causar ou se tudo aquilo era real.

Richey tirou uma navalha do bolso e escreveu 4REAL no seu braço. A brincadeira foi parar no hospital

Richey4RealTornaram-se públicos seus problemas pessoais: drogas, álcool, auto-mutilação, anorexia e depressão. Richey Edwards era uma bomba relógio pronta pra explodir. E explodiu no terceiro álbum do Manics, The Holy Bible, lançado 29 de Agosto de 1994, alguns meses antes da tragédia acontecer.

O primeiro álbum da banda, o glam-punk Generation Terrorists, se concentrou em temas políticos. O segundo, o mais radiofônico Gold Against The Soul, em temas mais pessoais, existenciais. Os Manics estavam prontos para juntar os dois lados e fazer seu álbum definitivo – precisavam desesperadamente, pois apesar de uma carreira festejada no underground, não vendiam muitos álbuns.

Cercado de tensões e isolados do mundo, gravaram The Holy Bible e alcançaram seu objetivo – o disco é tido como um dos melhores da sua época, recebeu aclamação da crítica, é considerado o grande álbum da banda (que já tem 12) pelos fãs e melhorou as vendas – embora o sucesso comercial só viesse depois.

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Mas não apenas graças aos badalados Richey e o baixista Nick Wire, que co-escrevia as letras – os Manics tinham uma pérola perdida e um grande talento até hoje subestimado na sua formação – James Dean Bradfield, que bizarramente, mesmo sendo vocalista, guitarrista e compositor de todas as músicas, era o membro menos famoso da banda ao lado do baterista Sean Moore.

Influenciados por gêneros distintos como post-punk, new wave, industrial, punk, goth e art-rock, The Holy Bible tem uma sonoridade única, agressiva, visceral, bem-trabalhada e obscura. O ataque de guitarras é paranoico, mas não soa como rock tradicional, e o álbum é experimental e versátil, do rápido single Faster (tocado no TOTP com a banda vestida como terroristas) a arrastada She Is Suffering.

O que o elevou ao status de testamento da intensidade – eleito pela própria NME como “o álbum mais sombrio de todos os tempos” – foram os temas que cercam suas músicas. The Holy Bible é uma obra sobre, nas palavras da banda: “consumismo americano, imperialismo britânico, liberdade de expressão, o  Holocausto, greve de fome, pena de morte, revolução política, infância, fascismo e suicídio”

manic-street-preachers-1994--large-msg-122779081597Na abertura, Yes, o consumismo já é assunto: “Nessas ruas doentes da miséria / Você pode comprar qualquer coisa / Por $200 qualquer um pode comprar Deus no Vídeo / Ele é um garoto / Você quer uma garota / Corte seu pênis e chame ele de Rita, se você quiser”

Na segunda faixa, que entrou pro guiness como maior título de faixa –Ifwhiteamericatoldthetruthforonedayitsworldwouldfallapart – é a vez de atacar o racismo, seja ele americano ou britânico: “Conservadores dizem: não há negros no Reino Unido / Democratas dizem: não há brancos suficientes nas estrelas”

Por todo o álbum, temas transgressivos são abordados, tanto sociais quanto pessoais. A qualidade da escrita e musicalidade da banda criam imagens poderosas e a atmosfera do disco é palpável e paranoica. Mas o título de música mais agoniante, não apenas do álbum, vai para 4st 7lb, na nossa contagem de peso, “26kg”, que é narrada como se fosse o diário de uma adolescente anoréxica que sonha “andar na neve sem deixar pegadas”, refletindo um problema que o próprio autor enfrentava na época.

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Após seu testamento final, Richey Edwards desapareceu, e após uma pausa, com apoio da família dele, os Manics continuaram sua carreira, doando 25% dos lucros a ela. O também clássico álbum seguinte, bem entitulado de Everything Must Go, ainda contava com algumas letras dele, como a faixa Kevin Carter, sobre o autor desta foto aqui.

Com um som mais acessível, os Manics atingiram amplo sucesso comercial quando viraram o trio, se tornando uma das bandas mais populares do Reino Unido, com direito a álbuns e singles na primeira posição das UK Charts e um lugar entre os maiores recordistas de prêmios do BRIT Awards até hoje. Mas permaneceram fiéis a sua ideologia, sendo a primeira grande banda ocidental a tocar em Cuba, recebidos no país por Fidel Castro, em 2001.

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Em 2009, após a morte de Richey ser oficializada, gravaram o álbum Journal For Plague Loves, com letras encontradas em um diário perdido de seu ex-membro, voltando a sonoridade sombria de Holy Bible.

Com o décimo primeiro álbum lançado em 2014, Futurology, os Manics tem muitas outras histórias para contar. Mas 2014, antes de tudo,  foi o ano de celebrar 20 anos de talvez o ápice de uma banda que é um verdadeiro tesouro nacional de País de Gales para o mundo.

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