Mundo dos Vinis

Um vendedor e um colecionador de vinis travam uma discussão acirrada na rua Pedro Lessa, próximo à Cinelândia, no centro Rio de Janeiro. Seu Menezes é o vendedor. Em suas prateleiras possuem LPs de Vinícius de Morais, Baden Powell, Tom Jobim, Nara Leão, Toquinho, Maria Creuza e alguns de rock, porém nem tão evidentes dentre os mestres da bossa nova.

O colecionador deseja trocar cinco vinis de rock por apenas um disco da prateleira do seu Menezes. O cobiçado LP é A Bossa Negra, de Elza Soares. O disco lançado em 1961 foi o segundo da carreira da cantora. Na “banca” do seu Menezes ele custa hoje 150 reais.

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Banca de Vinil do senhor Menezes na rua Pedro Lessa, centro do Rio de Janeiro.

A troca não foi realizada. Para o vendedor, os cinco discos de rock do colecionador não possuem o mesmo valor que foi agregado ao vinil de Elza Soares. Chateado, o cliente vai embora e seu Meneses me conta um pouquinho sobre o mundo da venda de vinis em pleno boom dos downloads de músicas. Acompanhe a entrevista:

O senhor tem um público fiel?

Trabalhamos aqui de segunda a sexta, já existe um público formado. Gente que convive com essa atmosfera cultural do vinil. A maioria é colecionador. Quando não compra vem para conversar, bater papo. Quando vê algo que interessa pega e leva. Também tenho uma agenda cheia de clientes, quando aparece um disco que seja do interesse de alguém é só telefonar e pedir para buscar.

Já vendeu vinis para artistas colecionadores?

Para o Jards Macalé. Também já vendi para o Ricardo Cravo Albin. Mas isso foi uma época. Só nessa rua aqui já estamos há 17, 18 anos. Trabalho com vinil desde do final da ditadura. Nós viemos lá da boca do metrô da Carioca. Isso dá até filme. Eu sou o vendedor mais antigo do pedaço.

Quanto custa um LP na sua “banca”?

Tem vários preços, mas aqui quem faz  o preço é o freguês. Daí eu negocio. Mas exitem várias opções no mercado. As vezes o disco fica um pouco mais barato porque o cliente vai em três, quatro lugares para fazer levantamento de preço. A média de um LP fica em torno de 10 a 30 reais. Mas o que tem sido mais valorizado são os LPs de bossa nova. O disco pode ser ainda mais valorizado quando está zerado, conservado. Então, podemos pedir o preço mais alto. O cara paga se quiser. Se ele souber conversar pode até te dar uma ideia, mas se vem querendo achar que estou cobrando mais caro, então que vá para internet. Eles vão lá e ficam bolados porque é mais caro. Eu ouço dizer.

Quantos discos você vende por dia?

Devido a concorrência as vendas aqui caíram muito. Mas a gente vende. Os vendedores dessa rua são os mais antigos do centro do Rio.

Você vende mais disco nacional ou internacional?

Antigamente se ouvia muita música francesa e italiana, hoje não vendemos mais Sinatra, por exemplo. Vendíamos seus discos em quantidade, agora não mais. O que continua vendendo é o jazz, mas o público caiu muito, a cabeça das pessoas agora é outra. A velha guarda está morrendo, os filhos não acompanham. Hoje em dia o que o mundo todo busca é música brasileira, mas os estudantes ainda procuram mais o rock.

É comum a procura de vinis por colecionadores de outros países?

Era, mas infelizmente a internet tirou eles. Vinham para cá antes. Hoje é difícil encontrar um disco raro, está fora do Brasil. Os gringos compram todos. Sabem mais da gente que nós.

Quais são os discos raros?

Os discos raros são de bossa nova, velha guarda de qualidade e rock dos anos 70. 

Onde você consegue seus vinis?

Consigo com os colecionadores que morreram. A família passa tudo. Aí você escolhe. Não vai pegar qualquer coisa, mas o que vale mais. As pessoas também me procuram para vender. Algumas, quando têm muito dinheiro doam.

Os colecionadores costumam lhe procurar para trocar vinis?

Na minha época eu trocava um disco por 20. Não adianta alguém vir com 30 discos e levar um raro. Vendedor que é vendedor não troca. Alguns não conhecem o valor de um bom vinil, então trocam. Eu troco, mas não alhos por bugalhos.

…….

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5 comentários Adicione o seu

  1. Carlos Edmar disse:

    Olá. Li a matéria que saiu hoje no Globo Niterói e fiquei surpreso ao ver uma menina segurando o disco do Renaissance “Ashes are Burning”. Fiquei curioso em saber se esse disco já foi ouvido/discutido. Se não foi ainda (e se houver interesse em ser discutido), gostaria de oferecer minha pequena ajuda. Tenho contato direto com a Annie Haslam, cantora do Renaissance e acho que ela ficaria feliz em poder ter algum tipo de participação no evento, seja através de uma mensagem, de um video, ou uma entrevista. Além disso, possuo muitas informações a respeito do disco e da banda, que podem ser de interesse. Se quiserem minha ajuda, estou à disposição. Abraços!

    1. mariaelizabethmelo disse:

      Olá, Carlos! O disco ainda não foi discutido, pretendemos discutir sobre o álbum futuramente. Infelizmente, as atividades do Clube do Vinil deste ano estão sendo concluídas em dezembro, retomaremos em março somente. Mas, independente disto, se ela (A Annie Haslam) puder enviar uma mensagem – um video – a gente coloca no blog ainda este semestre. Agradecemos a disposição! Até mais.

      1. Carlos Edmar disse:

        OK. Vou falar com ela. Acho que ela vai adorar saber que ainda há pessoas com interesse no Ashes are Burning. Até mais.

  2. Carlos Edmar disse:

    Olá. A Annie Haslam me mandou um video em que ela manda uma mensagem para vocês. Como posso fazer para enviar o arquivo? Abs, Carlos Edmar

    1. mariaelizabethmelo disse:

      Desculpa a demora, Carlos. Pode mandar para o meu email! mariaelizabeth.melo@outlook.com , muito obrigada pelo retorno!

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